• unlimited access with print and download
    $ 37 00
  • read full document, no print or download, expires after 72 hours
    $ 4 99
More info
Unlimited access including download and printing, plus availability for reading and annotating in your in your Udini library.
  • Access to this article in your Udini library for 72 hours from purchase.
  • The article will not be available for download or print.
  • Upgrade to the full version of this document at a reduced price.
  • Your trial access payment is credited when purchasing the full version.
Buy
Continue searching

Home sweet hell: The dysfunctional family in Lucio Cardoso's fiction

Dissertation
Author: Renato de Souza Alvim
Abstract:
This dissertation analyzes the dysfunctional relationships of the protagonist families in three works by Brazilian writer Lúcio Cardoso (1912-1968). His fiction focuses on the extremes of domestic dysfunction and violent acts of transgression, challenging the conventional image of the Brazilian family as the site of comfort and support - particularly the conservative family in the state of Minas Gerais. My analysis views such relationships as an allegory of Brazilian society near the midpoint of the 20 th century and less than 50 years after Brazil's proclamation of the First Republic. Economically and politically, the country was attempting to modernize and industrialize, and yet because of rural strife and traditional if not archaic values, it experienced difficulties and obstacles in its path to "Order and Progress" - the 19 th -century positivist motto that Brazil adopted for its flag. It is in the midst of this struggle toward modernity that Cardoso wrote his books about tangled family ties and discontents. Using the Family Systems Theory developed by psychologists Murray Bowen and Salvador Minuchin, I analyze the family structure in three works by Cardoso from three different decades: Salgueiro Hill , 1935; Inácio , 1944; and Chronicle of the Murdered House , 1959.

Renato de Souza Alvim HOME SWEET HELL: THE DYSFUNCTIONAL FAMILY IN LÚCIO CARDOSO’S FICTION This dissertation analyzes the dysfunctional relationships of the protagonist families in three works by Brazilian writer Lúcio Cardoso (1912–1968). His fiction focuses on the extremes of domestic dysfunction and violent acts of transgression, challenging the conventional image of the Brazilian family as the site of comfort and support – particularly the conservative family in the state of Minas Gerais. My analysis views such relationships as an allegory of Brazilian society near the midpoint of the 20 th century and less than 50 years after Brazil’s proclamation of the First Republic. Economically and politically, the country was attempting to modernize and industrialize, and yet because of rural strife and traditional if not archaic values, it experienced difficulties and obstacles in its path to “Order and Progress” – the 19 th -century positivist motto that Brazil adopted for its flag. It is in the midst of this struggle toward modernity that Cardoso wrote his books about tangled family ties and discontents. Using the Family Systems Theory developed by psychologists Murray Bowen and Salvador Minuchin, I analyze the family structure in three works by Cardoso from three different decades: Salgueiro Hill , 1935; Inácio , 1944; and Chronicle of the Murdered House , 1959. ______________________________________ ______________________________________ ______________________________________ ______________________________________

vii

Lar doce inferno: a família disfuncional em três obras de Lúcio Cardoso

Introdução

Capítulo Um O inferno é aqui – Lúcio Cardoso e os contextos literário e político (1930 – 1960) 1.1 – A produção cardosiana e seu contexto literário 1.2 – Cornélio Penna, Lúcio Cardoso e Octavio de Faria – aproximações e afinidades 1.3 – A produção cardosiana e seu contexto político – de Vargas a J.K.

Capítulo Dois A disfuncionalidade e o ambiente familiar: doce inferno 2.1 – O Morro e o barraco: Salgueiro

2.2 – O quarto e a rua: Inácio

2.3 – A Chácara e o Pavilhão: Crônica da casa assassinada

Capítulo Três A família disfuncional em Salgueiro , Inácio e Crônica da casa assassinada

3.1 – Família saudável e família disfuncional – uma leitura sistêmica 3.2.1 – Relações familiares disfuncionais em Salgueiro

3.2.2 – Relações familiares disfuncionais em Inácio

3.2.3 – Relações familiares disfuncionais em Crônica da casa assassinada

3. 3 – Nem Evas, nem Madalenas, nem Marias: esposas, mães, filhas e irmãs em Salgueiro , Inácio e Crônica da casa assassinada

viii

3. 4– Pais ausentes, paternidades questionadas e filhos nem tão pródigos em Salgueiro , Inácio e Crônica da casa assassinada

Apêndice 1 Apêndice 2 Apêndice 3 Apêndice 4

Capítulo Quatro Desconstruindo o lar pela construção do texto 4.1 – A individuação dos personagens 4.2 – Rumo à subjetividade – outros aspectos formais em Lúcio Cardoso 4.2.1 – Estruturas narrativas

4.3 – As diferentes formas de composição: sagrado e profano 4.4 – A vida reduzida a um par de meias

Conclusão

Referências bibliográficas

Alvim 1

Introdução A presente pesquisa lança luz sobre um tema bastante recorrente na produção cardosiana e até então inexplorado: famílias protagonistas cuja relação é sempre disfuncional. Uma série de questões antecede e sucede meus estudos sobre a disfuncionalidade das famílias nas obras de Lúcio Cardoso: ainda que em sua obra se privilegie a individualidade de seus personagens, por que o sistema familiar é sempre uma constante em suas obras? Que imagem de família realmente constitui a predominante nos textos cardosianos? Motivados e intrigados pela declaração do escritor em entrevista ao Jornal do Brasil (1960) de que “o punhal que levanto, com a aprovação ou não de quem quer que seja, é contra Minas Gerais [...]. Contra a família mineira... Contra a concepção de vida mineira”, surgiram as questões referentes a essas famílias. Analisados seus perfis, em particular o da família mineira e, no geral, o da brasileira, e em sentido mais amplo, as concepções e valores de “família” como um todo (família saudável, familia patológica, por exemplo), perguntamo-nos ainda: em que contexto são apresentadas estas famílias? Em que tipo de espaço se deslocam as personagens individualmente e como grupo familiar? É à família em seu sentido conotativo ou como alegoria de um conceito maior que se refere Lúcio Cardoso? E qual seria o arcabouço teórico que melhor nos serviria para tal análise? Para tanto, foram escolhidas três das mais significantes obras literárias de sua prosa pertencentes a três diferentes décadas: o romance Salgueiro (1935), a novela Inácio (1944) e sua obra-prima, o romance Crônica da casa assassinada (1959). Esse percurso cronológico também nos possibilita acompanhar o amadurecimento da carreira do autor, o seu progressivo distanciamento da linha do romance social ou regionalista e sua aproximação do romance intimista ou introspectivo, até seu mergulho definitivo neste último – que passou a caracterizar sua escritura.

Alvim 2

Esta tese está estruturada em quatro capítulos nos quais o tema da disfuncionalidade familiar é analisado conforme se segue: No Capítulo Um, apresentamos a contextualização da obra do autor sob os aspectos literário e político, de forma geral, e em particular as três obras referidas anteriormente de acordo com a década em que foram lançadas. A partir dos anos 30, quando se é possível identificar dois distintos grupos – o do romance social e o do romance intimista –, analisamos o diferencial que o texto cardosiano vai apresentando, mas não sem antes passarmos pela controvérsia (em) que (se) envolveu Lúcio Cardoso em relação à crítica e à produção literária da época. Dos anos 40, anotamos a definição do traço intimista já amplamente adotado como inerente à obra do autor, para, nos anos 50, coroar a prosa cardosiana com sua obra-prima, Crônica da casa assassinada , produção mais madura que revela um autor mais elaborado quanto à estruturação de texto, ao trato do conteúdo e ao delineamento de suas personagens. Dois outros autores, Cornélio Penna e Octavio de Faria, têm aqui seus romances Fronteira (1933) e Mundos mortos (1937), respectivamente, comparados aos textos do autor mineiro em função de sua afinidade com Lúcio Cardoso na literatura e na vida pessoal. Oferecem-se, então, os cenários políticos em que as obras foram lançadas, quando a relação disfuncional nas famílias protagonistas é analisada como alegoria do quadro político nacional em diferentes momentos: durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas, período ditatorial deste mesmo presidente durante o Estado Novo e, finalmente, no mandato de Juscelino Kubitschek. No Capítulo Dois, a disfuncionalidade é vista de dentro do espaço habitado pelas famílias protagonistas de Lúcio Cardoso. Em Salgueiro , analisa-se a representação do cotidiano da família do velho Manuel em um barraco do morro do Salgueiro. Sob a política de Getúlio Vargas, então considerado o “Pai dos pobres”, desenvolvida no capítulo anterior, encontramos os

Alvim 3

protagonistas em sua vida diária e nas dificuldades em lidar principalmente com a questão emocional dos membros daquela família, agravada pela completa negação de Deus, ou pelo distanciamento causado por culpa e medo de punição. Em Inácio , a Lapa carioca dos anos 40 serve de palco para a procura delirante do protagonista Rogério no encalço de seus pais e da restituição da própria história. Casa ou lar são ideias inexistentes no cotidiano das personagens de cujo drama participamos, até que uma reviravolta no final da novela surpreende o leitor e põe em questão a perspectiva da narrativa que se acompanhara: a disfuncionalidade do sistema familiar só parece ser resolvida no terreno da loucura, único escape disponível para nosso protagonista. Já em Crônica da casa assassinada , a casa, metonímia dos decadentes Meneses, encarna sua glória passada que, concomitante com seu próprio desmoronamento, serve de espaço para se retratar o declínio das famílias do interior rural mineiro. Associada ao momento político do mandato de Juscelino Kubitschek, o retrato da confusa família é o reflexo da conflituosa mensagem que se produzia no cenário nacional: abandonar a mentalidade rural e tornar-se, da noite para o dia, um Brasil moderno. O Capítulo Três traz o arcabouço teórico da Teoria (Familiar) Sistêmica de Salvador Minuchin – Family Healing (1994) – e Murray Bowen – Family Therapy in Clinical Practice

(1985). Nela, as relações intrassistêmicas são observadas no contexto do grupo familiar ao invés de se localizar a patologia na individualidade. É sob este ângulo que observamos as disfuncionalidades das famílias nas três obras de Lúcio Cardoso, oferecendo, ao fim do capítulo, a representação dos mapas estruturais de cada sistema familiar como forma de se perceber mais acuradamente como tais relações se estabelecem. No Capítulo Quatro, lê-se a disfuncionalidade das famílias pela construção do texto cardosiano, ou seja, analisam-se a estrutura e os recursos textuais utilizados pelo autor na

Alvim 4

representação dos sistemas familiares protagonistas das três obras. As conclusões dessa análise comprovam um aumento da complexidade que vai assumindo a obra de Lúcio Cardoso através das décadas. Nota-se que a estrutura mais elaborada e a crescente subjetividade de seus textos são os indicadores mais potentes do seu amadurecimento como autor, daí seu romance de 1959 tornar-se sua obra-prima.

Alvim 5

Capítulo Um O inferno é aqui – Lúcio Cardoso e os contextos literário e político (1930 – 1960)

Mas sempre me espantei de como os homens invejavam a felicidade dos outros: não era às minhas dívidas que eles não perdoavam, mas à ventura que brilhava nos meus olhos. (Lúcio Cardoso, Inácio 60)

Lúcio Cardoso (1912–1968), mineiro de Curvelo, é autor cujo trabalho tem sido foco de interesse crescente, porém ainda muito tímido no meio acadêmico caso se leve em consideração a importância de sua obra no contexto literário nacional. Muito do que produziu permanece pouco explorado pela maioria dos especialistas em estudos lusófonos e latino-americanos. Além do terreno literário, o autor incursou pelo cinema no então nascente Cinema Novo, sendo também pioneiro no Teatro Experimental do Negro, e durante os últimos anos de sua vida produziu o que hoje é um acervo de pinturas com cerca de quinhentas telas. Em seu Diário completo (1960), Cardoso diz-se portador de um “mal de proporções catastróficas – uma imaginação que nunca permanece em repouso” (18), o que lhe permitiu tal produção em grande parte ainda desconhecida e constituinte de desafio para estudiosos de diversas áreas. Observa-se já no seu segundo romance publicado, Salgueiro , o movimento que vai culminar décadas mais tarde com o seu texto de elaboração mais complexa. Ao lado de escritores como Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Octavio de Faria e Cornélio Penna, Lúcio Cardoso figura como um dos nomes mais importantes dessa fase do romance iniciado na década de 30 – segundo momento do Modernismo, movimento lançado na

Alvim 6

Semana de Arte Moderna de 22 – e sua obra Crônica da casa assassinada é considerada uma das mais representativas inovações da prosa brasileira do século XX. Para melhor acompanharmos a incursão do autor e de sua obra no cenário cultural brasileiro, passamos, a seguir, à análise de fatores que julgamos cruciais à melhor compreensão de sua trajetória.

1.1 – A produção cardosiana e seu contexto literário A criação de “infernos” na obra de Lúcio Cardoso não é aleatória, uma vez que já em seu romance de estreia, Maleita (1934), o autor reservara espaço privilegiado para a caracterização do ambiente, tanto como espaço físico, quanto lugar de manifestações psicológicas. 1 O espírito documental, o subjugo do homem pela força do ambiente e fato de a obra apresentar a revolta de miseráveis contra o colonizador valeram ao escritor recepção positiva pela crítica literária e uma acolhida calorosa entre vários escritores da década de 30. O sucesso de crítica e de público marcou várias obras caracterizadas pela denúncia social – romance regionalista –, e exemplos marcantes são os dos escritores do Nordeste, Jorge Amado e José Lins do Rego, além de Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. Representantes de sucesso do que alguns críticos da época denominaram literatura proletária e literatura de ciclo, respectivamente, aqueles dois primeiros estruturaram suas obras sobre os pilares do espírito documental, do movimento de massas e do sentimento de luta e revolta (e a esses pilares somaram-se uma descrição bastante próxima da realidade da vida proletária, no primeiro caso, e de ciclos de produção agrícola, no segundo). Na verdade, o próprio Jorge Amado, jovem escritor que no mesmo ano de 1934 lança Cacau,

reconhece o valor da obra do então iniciante Lúcio Cardoso. Porém, segundo o escritor baiano, faltava ao escritor mineiro de Curvelo uma posição de esquerda mais definida. E, obviamente

Alvim 7

envolvido pessoalmente com o uso da obra literária como propagação de ideologia de esquerda (comunista), Jorge Amado faz-lhe ressalvas quanto ao que não lhe agradara no texto: um certo teor católico. Daí também a difícil inclusão completa de Maleita no grupo dos romances regionalistas, sociais ou proletários. Agripino Grieco, crítico conhecido no meio literário pelo tom notadamente ríspido de suas observações, entusiasmara-se com o romance de estreia de Lúcio Cardoso. Em Gente nova do Brasil (1948) escreve: “Talento admirável, como raras vezes se tem verificado em nossas letras, tratando-se de autor tão jovem” (62). Quanto ao romance, Grieco faz alusões à imponência do Rio São Francisco e à personificação da cidade de Pirapora, e elogia a “prestigiosa força da ambiência no volume” (62), finalizando: “E o sr. Cardoso, tratando deles [heróis], apresenta-nos aos vinte anos um livro que nos inspira essa pergunta: ‘Quantos brasileiros de cinquenta são capazes de fazer isto?’” (65). Tudo parecia estar a favor do autor mineiro em sua ambientação com um estilo que pareceria enveredar pelo romance regionalista – mesmo que sem grandes orientações sociais; um desvio de curso viria a custar-lhe, porém, uma reviravolta da crítica. Via de regra, a produção literária dos anos 30 é associada a dois principais grupos de escritores: os do romance social – Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Lúcia Miguel Pereira –, dentre outros, e os do romance introspectivo: Jorge de Lima, João Alphonsus, Marques Rebelo, Cyro dos Anjos, Octavio de Faria, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Vinícius de Morais e Dyonélio Machado, entre outros. Ao analisar os dois grupos e sua relação à proposta modernista de 1922, Massaud Moisés, em História da literatura brasileira (1989), observa ser o primeiro mais conservador quanto à sua proposta estética, mostrando-se mais revolucionário, todavia, quanto ao conteúdo ao apresentar

Alvim 8

uma chamada à realidade social do Brasil e propor aos leitores seu engajamento com vistas à mudança do quadro social vigente. A bem da verdade, no primeiro governo de Getúlio Vargas, de 1930 a 1934, permitira-se uma abertura e uma liberdade de expressão sem precedentes no País, inclusive na defesa do comunismo, como no caso de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. O romance social pôde ser (e foi) amplamente utilizado não somente como veículo de produção estética, mas também como manifestação ideológica. A importância desse grupo é conferida ainda pelo fato de este trazer à tona o Nordeste brasileiro, região marginalizada por sua condição sócio-econômica e por estar fora do eixo Sudeste-Sul, identificado como mais rico, progressista e modernizado. Já o segundo grupo se prestou a um experimentalismo maior na forma, adotando, contudo, uma proposta conservadora quanto à sua ideologia. A esse respeito, Massaud Moisés comenta: A prosa de ficção de 30 ergue-se sob o signo da pluralidade, razão por que somente se pode aceitar por necessidade de clareza a sua bifurcação em duas linhas contrastantes, uma realista e outra introspectiva. [...]. Não só se cruzam mais de uma vez, como levam até o fim o dualismo em que se sustentam: se, de um lado, é possível distinguir notas introspectivas em autores do grupo anterior, de outro, não estranha a presença de traços realistas ou costumbristas em escritores mais sensíveis às manifestações psicológicas. (245) Vários termos que identificam principalmente a prosa introspectiva são utilizados na crítica literária para definir o trabalho deste grupo literário dos anos 30; romance intimista, romance introspectivo, romance psicológico são alguns deles. Álvaro Lins, por exemplo, em O romance brasileiro contemporâneo (1963), compila textos de própria autoria com análises das obras de importantes escritores brasileiros e de suas trajetórias literárias, estabelecendo

Alvim 9

comparações na sua produção e apresentando tendências para o futuro das letras brasileiras. Além de trazer críticas substanciais das obras de Octavio de Faria e José Lins do Rego, dedica um capítulo a Lúcio Cardoso: “As duas fases de Lúcio Cardoso na transformação de Maleita até Mãos vazias ”, de janeiro de 1941. Nesse texto, aponta na produção do escritor mineiro até então publicada a tendência que marcará definitivamente a obra cardosiana: sua introspecção. Lins identifica nela e na análise psicológica “a verdadeira natureza do Sr. Lúcio Cardoso” (21), julgando-a superior à sua produção de início de carreira: Maleita e Salgueiro . Segundo Lins: No rapaz de vinte anos, que então aparecia, a sugestão do exterior era ainda mais forte do que a do seu insuspeitado mundo interior. [...]. Antes: um romancista ligado a processos contrários ao seu temperamento; um autor indeciso e vacilante, ouvindo mais a voz dos outros do que a sua. [...]. Depois: um romancista de análise e introspecção; um autor que se afirma com tendências dominantes do seu meio. (21) À designação análise psicológica e ao caráter introspectivo de Lins, Homero Silveira, em Aspectos do romance brasileiro contemporâneo (1977), acrescenta o termo “subjetivismo”. Silveira argumenta que essa “corrente subjetivista e introspectiva ou psicológica” (23) se apresenta impregnada de esteticismo, com “a indagação interior, a personalidade humana colocada em face de si mesma e analisada nas suas reações relativas aos outros homens” (23), e inclui nesta corrente, além dos autores supracitados, José Geraldo Vieira, Fernando Sabino e Autran Dourado. Ainda segundo Silveira, seriam especificamente João Alphonsus, Cyro dos Anjos, Marques Rebelo, Gustavo Corção e Octavio de Faria aqueles autores capazes de conciliar o documentário humano com a introspecção relativa, “sondagem psicológica somada à indagação religiosa e metafísica” (23). Assim posto, teríamos uma lista considerável de

Alvim 10

escritores dessa segunda fase, sendo relevante aqui mencionar ainda que algumas daquelas características do segundo grupo são parte marcante também de obras de Rachel de Queiroz, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, por exemplo. Augusto Frederico Schmidt, Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade encabeçariam, por sua vez, a autoria da produção poética com semelhante traço. Lúcio Cardoso criou obras que, de uma maneira ou de outra, comungam de todas as características associadas ao grupo introspectivo e, de acordo com Silveira, estaria mais próximo a Edgard Alan Poe ou a Franz Kafka do que a Dostoiévski, como afirmara Adonias Filho, porque, para Silveira, “toda a sua obra [de Cardoso] revela um espírito atormentado, criando do fundo de sua angústia um mundo de reprovação e de negatividade, difícil de se encontrar paralelo no romance brasileiro contemporâneo” (67). Após o lançamento de Salgueiro , a obra de Lúcio Cardoso começa a se afastar claramente de qualquer possibilidade de leitura que privilegia o aspecto social, apresentando aí personagens já com nítidas preocupações psicológicas e fazendo coro com um grupo cada vez mais crescente de escritores: o dos denominados escritores intimistas ou do romance introspectivo. 2 Note-se, por exemplo, que um dos protagonistas de Salgueiro , José Gabriel, trabalha como operário, e tal aspecto é um detalhe aparentemente menor se comparado a todo o seu drama psicológico cotidiano junto a sua família. Se comparado ao romance proletário, então, o detalhe de sua profissão torna-se praticamente insignificante. Consequentemente, a recepção de Lúcio Cardoso se comprometia com uma posição difícil, uma vez que não tendia para o romance de cunho social (ou que apoiasse a política de esquerda sustentada por grande parte da crítica) e, portanto, poderia ser encaixada no extremo oposto desse, ou seja, ser tomada como obra reacionária de direita. Octavio de Faria, em apoio à nova opção apresentada em Salgueiro , elogia a obra como

Alvim 11

sendo um romance de excelência. Aliás, ambos os escritores compartilhavam, além da amizade e de correspondências constantes, uma grande aversão ao romance do Nordeste, exercendo Octavio de Faria grande influência sobre Lúcio Cardoso quanto a esse aspecto. Em carta de 18 de abril de 1936, Octavio de Faria escreveria ao amigo referindo-se ao romance Luz no subsolo

(1936) que o mineiro estava então por concluir: Minha vontade, meu impulso natural é sair gritando: rua, canalha! (Zé Lins e Zé Linzinhos) rua, que o que interessa está aqui... Esse romance põe por terra esse resto pachorrento que vocês chamam “literatura” e salvo uns poucos, o resto é merda. 3 A oposição clara e aberta de Lúcio Cardoso àquela tendência tão forte da literatura da época fez com que o autor criasse inimigos e fechasse portas inclusive perante a crítica, diminuindo as chances de publicação de suas obras. Nem por isso ele se intimidava, ainda que a crítica o afetasse profissional e pessoalmente. Em carta a Érico Veríssimo, datada de 27 de setembro de 1937,

o autor mineiro usa termos como “monstruosidade” e “realidade fabricada” para se referir a Capitães da areia , (1936), de Jorge Amado. 4 Lúcio Cardoso comenta também o “horror” que se tornara a literatura brasileira da época, referindo-se a Jorge Amado como “crápula” e questionando seu valor como “escritor de brilho” (sem página), provavelmente aludindo a alguma crítica elogiosa ao baiano. Jorge Amado, por sua vez, também criticara Cardoso e sua obra mais de uma vez, mantendo a questão da separação literária mais no plano político-ideológico e pessoal do que no campo da literatura propriamente dito. Lúcio Cardoso procurava manter, no entanto, certo ritmo na sua produção, dedicando-se, além da prosa com que ficou mais conhecido, ao teatro – fundando com o ativista Abdias do Nascimento o Teatro Experimental do Negro –, a roteiros de filmes – sendo juntamente com Paulo César Saraceni

Alvim 12

autor do primeiro longa-metragem do nascente Cinema Novo, com Porto das caixas (1962) –, a traduções e, mais tarde, após o primeiro acidente vascular cerebral (em 12 de julho de 1962), à pintura. Mas é no romance que vamos encontrar sua produção mais consistente e madura. Lúcio Cardoso, controverso por natureza e de opinião aberta e desafiadora, parece ter pago um preço bastante alto por ter optado pela produção intimista. Sua oposição clara e sem meias-palavras à literatura engajada resultou em inimizades dentro e fora do circuito literário, envolvendo colegas autores, críticos literários e também a imprensa. Houve por parte de crítica uma divisão bastante clara entre os que eram a favor do escritor, do seu estilo e da literatura que propunha, e os regionalistas e seus simpatizantes, que se opunham a Lúcio Cardoso. Alguns nomes se destacam na crítica à sua obra. A seu favor escreveram Adonias Filho, Álvaro Lins e Octavio de Faria; contrariamente estavam Jorge Amado (que futuramente enalteceria os diferentes rumos que a literatura apresentava com a escritura de Lúcio), o jornalista de O Globo , Eloy Pontes, responsável por ataques inflamados tanto à pessoa do autor quanto à sua obra, e o também crítico Mario Cabral que, em 1943, publicara em jornal texto bastante depreciativo a respeito do e sua novela Mãos vazias . 5 Entre comentários que desqualificam não só a capacidade romanesca de Lúcio Cardoso a partir da mudança de rumo depois da publicação de Salgueiro , Mario Cabral copia expressões e palavras relacionadas a “sombra” e “escuridão” (e inclui as páginas) para comprovar que o escritor mineiro não conseguira “penetrar o íntimo das personagens através do estilo, daí abusando de palavras como fundo, profundo, subterrâneo”. Para tanto, Mario Cabral segue o exemplo de Eloy Pontes, que fizera o mesmo em relação à novela O desconhecido (1940). 6

Os reflexos de tais desavenças são analisados por Cássia dos Santos em Polêmica e

controvérsia em Lúcio Cardoso (2001), obra em que a autora detalha a recepção do autor pela

Alvim 13

crítica e pelo público desde sua estreia até a publicação da novela O enfeitiçado (1954). 7 Talvez o caso de maior controvérsia que veio a público tenha sido uma possível desavença entre Lúcio Cardoso e José Lins do Rego divulgada em jornal. Com o título sensacionalista “Esbofeteado o sr. Lins do Rego?”,

a matéria narra uma suposta briga entre os dois autores após o lançamento do romance Mundos mortos (1937), de Octavio de Faria, na loja da Livraria José Olympio. 8 É a esse caráter controverso de Lúcio Cardoso que Cássia dos Santos atribui a rejeição tanto da obra quanto do autor mineiro no meio literário, pois, em um Brasil politicamente agitado, as repercussões diretas no meio intelectual não favoreceram em nada os que poderiam ser associados à posição política de direita. A autora também registra o fato de não haver encontrado sequer uma resenha crítica à novela Inácio (1944) e atribui esse fato à recusa de Lúcio Cardoso em produzir literatura engajada ou que tocasse na temática do belicismo, marcante no período da Segunda Guerra Mundial. Outra polêmica fora também criada com o escritor Clóvis Ramalhete, autor do romance Ciranda (1941), nominalmente citado por Lúcio Cardoso em artigo de jornal. 9

Seja pela polêmica, seja por outro motivo, a presença do autor no cenário cultural foi marcadamente inconstante e foi muito influenciada por opções pessoais que ou o deixavam afastado do meio intelectual ou o envolviam de maneira inflamada em discussões e debates de origens diversas. Na sequência, apresentamos o que nos parece mais apropriado em termos de afinidade literária e ideológica com o autor para, em seguida, situarmos sua obra no terreno político em que foi lançada bem como a análise de suas implicações.

1.2 – Cornélio Penna, Lúcio Cardoso e Octavio de Faria – aproximações e afinidades Em História concisa da literatura brasileira (1994), Alfredo Bosi aproxima a ficção de Lúcio Cardoso à de Cornélio Penna, reconhecendo-os como “talvez os únicos narradores

Alvim 14

brasileiros da década de 30 capazes de aproveitar sugestões do surrealismo sem perder de vista a paisagem moral da província que entra como clima nos seus romances” (414). Além do caráter sombrio dos ambientes e da nebulosidade das personagens desses dois autores ligados a Minas Gerais (Lúcio, por nascimento, e Cornélio, por admiração), seus caminhos artísticos coincidem também pela via das Belas Artes, mais especificamente pelo da pintura. Cornélio Penna iniciou sua carreira como pintor para, em seguida, trocar o pincel pela pena. Lúcio, por sua vez, em consequência de um acidente vascular cerebral em 1962, tomou o caminho inverso, produzindo cerca de quinhentas telas, uma vez impossibilitado de escrever e de se comunicar oralmente. Como forma de se justapor parte da obra desses dois artistas no campo literário, juntamente à do escritor Octavio de Faria, outro integrante do grupo romance introspectivo, passamos, em seguida à análise dos romances Fronteira (1933), de Cornélio Pena, Mundos mortos (1937), de Octavio de Faria e Crônica da casa assassinada , de Lúcio Cardoso, além de sua novela Inácio . O aspecto estrutural das quatro obras apresenta semelhanças, principalmente se se comparam as obras de Lúcio Cardoso e de Cornélio Penna, ambas com foco narrativo em primeira pessoa; já no romance de Octavio de Faria, o narrador é em terceira pessoa, onisciente, porém, bastante complexo, uma vez que lança mão do fluxo de consciência de alguns dos protagonistas para relatar sua percepção dos acontecimentos. Daí, exprime com maior intensidade seu ponto de vista, diminuindo as fronteiras entre papéis definidos de narrador- protagonista e narrador-observador, mesclando, assim, esses espaços. Se em Crônica da casa assassinada há uma multiplicidade de vozes (ainda que todas em primeira pessoa), em Fronteira há apenas uma voz. Pelo menos é o que se imagina até o penúltimo capítulo, pois, aí, denominado “Epílogo”, uma outra narrativa aparece, revelando que o que se apresentou foram transcrições de um diário de alguém que não se conhece, mas que

Full document contains 191 pages
Abstract: This dissertation analyzes the dysfunctional relationships of the protagonist families in three works by Brazilian writer Lúcio Cardoso (1912-1968). His fiction focuses on the extremes of domestic dysfunction and violent acts of transgression, challenging the conventional image of the Brazilian family as the site of comfort and support - particularly the conservative family in the state of Minas Gerais. My analysis views such relationships as an allegory of Brazilian society near the midpoint of the 20 th century and less than 50 years after Brazil's proclamation of the First Republic. Economically and politically, the country was attempting to modernize and industrialize, and yet because of rural strife and traditional if not archaic values, it experienced difficulties and obstacles in its path to "Order and Progress" - the 19 th -century positivist motto that Brazil adopted for its flag. It is in the midst of this struggle toward modernity that Cardoso wrote his books about tangled family ties and discontents. Using the Family Systems Theory developed by psychologists Murray Bowen and Salvador Minuchin, I analyze the family structure in three works by Cardoso from three different decades: Salgueiro Hill , 1935; Inácio , 1944; and Chronicle of the Murdered House , 1959.