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Autobiografia e autodidatismo: Graciliano Ramos e o significado de sua obra

Dissertation
Author: Marcelo da Silva Amorim
Abstract:
This work will focus on an examination of textual evidence to show that Graciliano Ramos's Infância (2006) is the result of the author's long and arduous trajectory as an autodidact. That trajectory is represented in a narrative that describes Ramos's process of acquiring literacy. In the narrative, there is first a report on the cultural aspects from the author's original social environment, in which a process of disruption is triggered and leads to a stage of transculturalization. During this stage the author leaves his immediate cultural universe to acquire new knowledge and constructs for himself references that are external to his familial background, such as the practice of intense reading. To maintain this recently developed habit, Graciliano Ramos creates partnerships with individuals who can guide him along a path that will take him to other levels in his cultural journey. In Infância , the final verification of the author as an autodidact is metaphorically represented by the short story "Pequeno pedinte", which is written by the protagonist. The content of the story is clearly autobiographical and alludes to a broader literary project in which the writer finds meanings for his entire career. The project referred to in the short story is Infância itself. Infância is constituted by memories of a past in which the author plays the role of the protagonist who learns to read and write and moves from one level of literacy to another. To support my discussion of Graciliano Ramos's trajectory as an autodidact who writes an autobiographical account, I will first analyze the concept of autobiography in relation to Infância e Memórias do cárcere , considered by most critics to be autobiographical. I will then study Infância in terms of his literary work in general. The focus will be on the type of relationship that Graciliano Ramos's reader may establish with the narratives, whether biographical or fictional, and on the way that they can identify the autodidact's features in the autobiographer's trajectory. I conclude in this work that the concept of autodidacticism can be extended to the individual who has not written an autobiography per se, but who has used other forms of narratives, either artistic or not, in prose or in a wide range of oral manifestations, such as ballads, songs, popular poetry, "repente", and rap, to express an autodidact/autobiographical model.

iii ABSTRACT MARCELO DA SILVA AMORIM:Autobiografia e autodidatismo:Graciliano Ramos e o significado de sua obra (Under the direction of Monica Rector) This work will focus on an examination of textual evidence to show that Graciliano Ramos’s Infância (2006) is the result of the author’s long and arduous trajectory as an autodidact.That trajectory is represented in a narrative that describes Ramos’s process of acquiring literacy.In the narrative,there is first a report on the cultural aspects from the author’s original social environment,in which a process of disruption is triggered and leads to a stage of transculturalization.During this stage the author leaves his immediate cultural universe to acquire new knowledge and constructs for himself references that are external to his familial background,such as the practice of intense reading.To maintain this recently developed habit,Graciliano Ramos creates partnerships with individuals who can guide him along a path that will take him to other levels in his cultural journey. In Infância ,the final verification of the author as an autodidact is metaphorically represented by the short story “Pequeno pedinte”,which is written by the protagonist. The content of the story is clearly autobiographical and alludes to a broader literary project in which the writer finds meanings for his entire career.The project referred to in the short story is Infância itself.Infância is constituted by memories of a past in which

iv the author plays the role of the protagonist who learns to read and write and moves from one level of literacy to another. To support my discussion of Graciliano Ramos’s trajectory as an autodidact who writes an autobiographical account,I will first analyze the concept of autobiography in relation to Infância e Memórias do cárcere, considered by most critics to be autobiographical.I will then study Infância in terms of his literary work in general.The focus will be on the type of relationship that Graciliano Ramos’s reader may establish with the narratives,whether biographical or fictional,and on the way that they can identify the autodidact’s features in the autobiographer’s trajectory. I conclude in this work that the concept of autodidacticism can be extended to the individual who has not written an autobiography per se,but who has used other forms of narratives,either artistic or not,in prose or in a wide range of oral manifestations,such as ballads,songs,popular poetry,“repente”,and rap,to express an autodidact/ autobiographical model.

v A Isabel e Yone,mães e avós excelentes,porque mulheres em total plenitude e poder.

vi AGRADECIMENTOS À Universidade da Carolina do Norte pelo apoio financeiro e constante incentivo à pesquisa;ao “Institute of Latin American Studies” e à “Mellon Foundation” pela bolsa de viagem concedida;a Monica Rector,pela orientação diligente,pela prontidão e pelas sugestões essenciais;a Tom Smither,pela inestimável colaboração;à minha família — pai,mãe e irmã — minha origem e meu retorno;a Antonio Andrade Filho e Patricia Helena Fuentes Lima,ledores deste trabalho e meus maiores amigos sobre a face da Terra,meu muito obrigado.

vii SUMÁRIO Capítulo INTRODUÇÃO..................................................................................1 I OS LIVROS PESSOAIS DE GRACILIANO RAMOS E O CONCEITO DE AUTOBIOGRAFIA................................................. 7 II O ESTATUTO ESPECÍFICO DE INFÂNCIA NA OBRA DO AUTOR.............................................................................................. 50 III A TRAJETÓRIA DO AUTODIDATA NA AUTOBIOGRAFIA........95 Horizonte cultural do meio social de origem...............................109 Descrição do ambiente da cultura de chegada.............................127 IV O PAPEL DO OUTRO NA CONSTITUIÇÃO DO AUTODIDATA..140 Os atores pedagógicos e o autodidata..........................................140 Tensões e conflitos:uma trajetória de rupturas e certificações....162 CONCLUSÃO ………………………………………………………… 181 BIBLIOGRAFIA ……………………………………………………… 186

INTRODUÇÃO Outubro de 1938.Já haviam transcorrido quase dois anos desde que Graciliano Ramos 1 fora posto em liberdade,após passar mais de dez meses nas prisões do Rio de Janeiro,sem que pesasse contra ele nenhuma acusação formal.Em sua nova vida na então capital do país,sem emprego fixo e a enfrentar difícil situação financeira,o escritor publica contos em jornais e revistas como meio de subsistência.Em 1945,vários desses contos são reunidos e publicados em forma de livro,sob o título Infância . Infância ambienta a história de um menino sem nome no Sertão e na Zona da Mata do Nordeste,em um Brasil recém-saído do regime monárquico.É final do século dezenove.A escravidão acabara de ser abolida,e,após um golpe de estado,Deodoro da Fonseca proclamara a República.Nas cidades,já havia a luz elétrica,o bonde,as novas profissões,as fábricas;os imigrantes continuavam a chegar;a ferrovia expandia-se.A sociedade,ainda organizada em torno de um sistema patriarcal extremamente hierarquizado,passava por mudanças significativas.Ficava cada vez mais difícil para os patriarcas exercerem o domínio total sobre seus clãs.Dos rincões do Brasil,os senhores de engenho mudavam-se para os palacetes dos centros urbanos,onde se tornariam capitalistas,e onde se instalaria apenas pequena parte da antiga e grande família de parentes,amigos,ex-escravos,compadres e agregados.No sertão,a estiagem já castigava 1 Deste ponto em diante,farei referência a Graciliano Ramos usando seu nome completo ou apenas pelo primeiro nome,seguindo a tradição dos trabalhos publicados no Brasil quando o autor referenciado faz parte do próprio objeto de estudo.

2 o homem,arruinava famílias e calcinava tudo que estivesse em seu caminho.O sertanejo já se movia,em correntes migratórias,para o Norte e para o Sudeste do país,fugindo das condições cruéis da terra,da natureza impiedosa e agressiva,do descaso e da falta de ação dos governos,a procurar a sobrevivência longe de casa e,muitas vezes,da própria família. É nesse cenário que se pode observar uma criança tímida,desajeitada,maltratada e,por vezes,aterrorizada diante das dimensões e da violência de seu mundo sertanejo: um menino que brinca sozinho,à sombra da casa grande empobrecida,em uma sociedade patriarcal cujos sinais de decadência começavam a mostrar-se.Ele conta sua experiência de machucamento e dor,medo e humilhações,tortura e rejeição,ou simplesmente indiferença,no meio familiar rigoroso e muitas vezes agressivo,em que os castigos tomavam as formas mais requintadas.Porém,ao mesmo tempo,sua história é o relato de uma trajetória,um percurso de dificuldades — entre avanços e retrocessos — relacionadas à sua mundivivência,ao modo como ele percebe o mundo ao seu redor e interage com ele.No meio das experiências de infortúnio e dos momentos raros de ludismo,surge a narrativa da aprendizagem,que se impõe definitivamente como parte do sistema social autoritário e decadente.Em uma prosa apurada e clara,econômica e irretocável,um narrador-protagonista revela seu primeiro contato com o alfabeto,nas lições tomadas ao pai,professor inábil e brutal,mas que,contraditoriamente,teria sido o primeiro a propiciar as condições para que o menino se deixasse seduzir pela literatura. Ele falará das leituras deficientes de uma mãe irascível e mesquinha,de sua avareza afetiva;da proteção a que se prestou a excelente prima nas horas de cólera paterna;de professores semi-analfabetos,leigos,em escolas ordinárias do interior.

3 Entretanto,tais cenas serão apenas um início modesto de uma trajetória,longa e árdua,trilhada e relatada por Graciliano.Meu enfoque interessa-se pelo método de aprendizado,ou seja,procura refletir sobre os mecanismos adotados pelo menino de Infância para apropriar-se não apenas do alfabeto,mas para mover-se de um nível de letramento a outros.A questão que motiva esse trabalho é por que e como Graciliano efetua seu deslocamento cultural,quando poderia ter permanecido confortavelmente instalado na ideologia de consumo da letra enquanto um expediente utilitarista como,de resto,era o pensamento corrente em seu meio.A sugestão de uma resposta — além dos momentos de maravilhamento com a literatura e o desvio da realidade dura que ela proporciona — inclui uma atitude autodidata que,no presente do narrador,recupera-se por meio da narrativa autobiográfica.A autobiografia é considerada como a reflexão indispensável que o autodidata faria de sua vida e de sua escritura,a certificação “final” de sua trajetória,na qual os significados do passado atualizam-se pela necessidade do presente.Embora essa não seja uma verdade que se possa estender indiscriminadamente a todos os autodidatas das letras,ela parece especialmente aplicável a Graciliano,que faz com que haja vários pontos de contato entre os trajetos do autobiógrafo e do autodidata. Como o percurso do autodidata compreende contar sua experiência de acesso ao saber,Infância despontará como o relato em si mais importante para este trabalho,porque é ali que o narrador participará aos leitores as experiências ocorridas em sua fase de apropriação da linguagem escrita.Entretanto,para considerar tal narrativa como uma parte especial da certificação da trajetória do autodidata Graciliano,primeiro será necessário considerar Infância como relato autobiográfico,o que nunca foi ponto pacífico na história da crítica literária brasileira.

4 O Capítulo I desta tese tratará de encontrar traços gerais em Infância que a filiem a uma tradição de relatos autobiográficos.No entanto,seria necessário,ao mesmo tempo, investigar a narrativa em relação ao projeto literário global do escritor,como um sistema cujas partes apresentam relações de dependência entre si.Assim,minha atitude foi a de explorar a idéia de que toda a obra de Graciliano,desde o mais tenro início,compreende a abordagem da autonarrativa 2 pelo menos como assunto e problematização.De Caetés a Memórias do cárcere ,em (quase) todos os livros do autor a questão autobiográfica estará colocada de forma bastante explícita.Uma maneira de tratar sobre o assunto, inicialmente,será abordar o conceito de autobiografia nos livros pessoais de Graciliano, através da comparação entre Infância e Memórias do cárcere .Tais livros,publicados em 1945 e 1953 respectivamente,são considerados como pertencentes a uma tradição confessional,memorialística.Entre diferenças e semelhanças,pretendo estabelecer como as duas narrativas,ao seu modo,comportam-se diante do aparato teórico normativo que trata do “gênero” autobiográfico,cujo representante talvez mais conhecido seja Philippe Lejeune.Apontarei alguns traços nas narrativas de Graciliano que questionam a classificação rígida e compartimentada dos gêneros através de um estudo que leva em consideração,principalmente,a dinâmica narrativa dos livros em questão. No Capítulo II,procederei a uma análise particular de Infância ,buscando estabelecer suas peculiaridades enquanto narrativa autobiográfica e apontando seu estatuto ou status específico de relato que incorpora a ficcionalidade como método constitutivo de si mesmo.Centrarei minha atenção na tarefa de discutir o papel da ficção no livro,e se este fato faz ou não faz dele uma narrativa ficcional,dando destaque à 2 Permito-me usar esse rótulo mais genérico para englobar toda espécie de narrativa memorialista,testemunhal, atobiográfica,entre muitas outras.

5 presença do leitor como co-participante da dinâmica de estabelecer um pacto que definirá ou sugerirá uma postura prevalente no modo de ler Infância .Ademais,tentarei identificar as opções que o leitor terá durante o processo de identificação entre narrador, protagonista e autor,uma das principais exigências das cogitações normativas nos estudos autobiográficos.Apontarei visões de outros críticos ou teóricos que abordaram a problemática de forma diferenciada,tentando encontrar novos caminhos para a compreensão de Infância como uma narrativa que questiona os próprios conceitos de ficcionalidade e não-ficcionalidade.Os romances Caetés e São Bernardo figurarão aqui como uma introdução ao assunto da autobiografia enquanto tema e problematização desde o início da carreira literária de Graciliano. O Capítulo III visará a desvelar a trajetória do autodidata na autobiografia, apontando o desdobramento do menino,persona de Infância ,em várias possibilidades que se associam aos protagonistas de outros livros do autor.Dessa forma,a trajetória do autodidata extrapola os limites de Infância ,tendo ecos também em sua produção ficcional e nas Memórias do cárcere .Aqui tentarei verificar por que ele precisa narrativizar sua trajetória de aprendiz do alfabeto e sua aquisição dos letramentos que o tornarão um escritor no futuro.Assim,as fases de letramento são consideradas como experiências cruciais que provêem a transformação profunda que precisa ser comunicada e,com isso, ter seu sentido completado na escritura da própria autobiografia como certificação final de sua trajetória.Graciliano é,pois,tido por um autodidata,que principiará sua autonarrativa retratando seu meio social de origem,ostensivamente oral,e descrevendo sua transculturação subseqüente.O objetivo de mostrar-se o mapeamento dos elementos culturais,feito pelo autor,é contrastar seu meio de origem com outras instâncias de

6 cultura e seus bens típicos,dos quais Graciliano irá se apropriar.O retrato do meio do protagonista sugerirá que a responsabilidade pela apropriação de novos bens de cultura recai sobre ele próprio,ressaltando seu papel na dinâmica e configurando o motivo autodidata. O Capítulo IV mostrará a continuação da descrição do meio cultural de origem do protagonista através do relato que o autobiógrafo provê,envolvendo as pessoas relacionadas à constituição da formação do autodidata e o papel que desempenharam em tal processo.Aqui ocorre o início da transculturação do personagem que,“rompendo” com seu meio de origem,entra na fase de errância literária,buscando pares que o tutelem nos caminhos tortuosos da aquisição certificada de bens culturais,que transformarão seu horizonte cultural e farão com que a apropriação se efetive de forma eficiente e definitiva com relação à nova referência cultural. A Conclusão desta tese tecerá comentários acerca de um Graciliano que,de leitor, transita à outra extremidade da relação com o livro:ele se torna escritor,ou seja,ele passa a ser lido.De leitor a escritor,Graciliano faz refletirem,em sua escrita,as experiências de vários letramentos acumulados,valorizando formalmente o capital oral herdado diretamente de seu meio original.Além disso,colocarei a reflexão que questiona se o modelo do autodidata autobiográfico presta-se como representação apenas para o indivíduo que se tornou escritor e oportunizou sua trajetória autodidata em uma autobiografia ou se ele poderá aplicar-se também ao autodidata sem projeto autobiográfico.

CAPÍTULO I OS LIVROS PESSOAIS DE GRACILIANO RAMOS E O CONCEITO DE AUTOBIOGRAFIA Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos,a nossa vida.Arte é sangue,é carne.Além disso não há nada.As nossas personagens são pedaços de nós mesmos,só podemos expor o que somos.(Graciliano Ramos) Neste capítulo,encontrar-se-á uma discussão que põe em paralelo as narrativas Memórias do cárcere e Infância ,ressaltando os pontos em que elas se aproximam e se afastam com relação a determinados aspectos constitutivos.Considerados pela crítica como as duas obras confessionais de Graciliano Ramos,esses livros apresentam semelhanças e diferenças importantes que levam a questionar o próprio conceito do gênero a que são comumente associados.Essas narrativas serão confrontadas com a conhecida classificação de Lejeune,que tentou estabelecer as bases teóricas para compreender-se o gênero autobiográfico.Tal teórico foi escolhido devido à natureza normativa de sua taxonomia,embora se conte com as visões de outros estudiosos do assunto e da teoria literária em geral.Dessa forma,verificar-se-á em que medida,nos dois livros em questão,o leitor conseguirá estabelecer relações de identidade entre autor, narrador e protagonista,o que é uma das exigências apontadas por Lejeune para a definição de autobiografia,e até que ponto o leitor conseguirá identificar a natureza de um pacto proposto pelas narrativas.Em suma,tentar-se-á explicar como Memórias do

8 cárcere e Infância comportam-se diante da noção que Lejeune propõe para autobiografia e como colocam em xeque alguns de seus conceitos. Uma das idéias normalmente ligadas ao conceito de autobiografia é que o autor deverá dizer a verdade sobre fatos passados em sua vida,fornecendo um relato cujo embasamento esteia-se na matéria factual.Dessa forma,a primeira discussão aqui debaterá como as dinâmicas narrativas de Memórias do cárcere e Infância portam-se diante desta questão entre a ficção e a não-ficção,que vem sendo colocada em pauta por muitos autores na história da literatura.Aqui isto se realizará por uma comparação inicial entre Em liberdade ,de Silviano Santiago,e Memórias póstumas de Brás Cubas ,de Machado de Assis. Em Em liberdade ,Santiago assina uma “Nota do Editor”,na qual conta que Graciliano —no intervalo compreendido entre sua saída da prisão,em janeiro de 1937,e a instauração do Estado Novo,em novembro do mesmo ano —teria escrito um diário no qual relatava as agruras de sua vida nos quartos de pensão do Rio de Janeiro,após deixar o cárcere.Em tais apontamentos,intitulados “Em liberdade”,ele teria registrado suas reações diante do que lhe acontecera e acontecia,bem como diante dos eventos que sucediam no Brasil e no mundo à época.Tal diário seria,dessa forma,uma seqüência lógica — ainda que antecipada — da narrativa de Memórias do cárcere ,cujo derradeiro capítulo Graciliano não conseguira redigir. Graciliano Ramos,em 1946,teria se desfeito do manuscrito:confiara-o a um velho amigo seu,a quem pedira que o guardasse em segredo.A única exigência era que o diário somente deveria ser levado ao conhecimento público vinte e cinco anos após a sua morte.Anos mais tarde,Santiago teria travado conhecimento com o guardião dos

9 originais,que lhe confessara manter em seu poder obra inédita de Graciliano.Em fins de 1965,depois do falecimento do fiel depositário,cujo nome nunca se revela,sua viúva teria enviado o volume por correio a Santiago,que passara assim à condição de tutor dos escritos.Finda a carência de tempo estipulada pelo próprio Graciliano,Santiago resolve publicar “Em liberdade”,passando à condição de editor do manuscrito. Um exame mais atento das primeiras páginas de Em liberdade leva a desdobramentos com resultados interessantes.A nota do editor,introduzida imediatamente abaixo do título “Em Liberdade:uma ficção de Silviano Santiago”,denota um lugar peculiarmente constituído.O modo como se organiza o sumário do livro prontamente revela a figura do editor como uma instância discursiva ficcional,uma voz pré-narrativa,entre outros personagens,cuja função consiste em explicar os antecedentes do diário,justificando sua existência e situando-o dentro de uma trajetória pessoal. Na realidade,Santiago não é editor de “Em liberdade”,o suposto diário,nem o pretende ser.Antes,ele é o autor empírico de um romance homônimo,matéria de caráter ficcional,mas que bem se poderia tomar pela condição de matéria factual.É altamente provável que nunca tenha existido um diário mantido por Graciliano.O estabelecimento de um editor que ocupa um lugar ficcional,embutido na constituição do próprio romance — e que confere à narrativa uma aparência de autenticidade (auto)biográfica — consiste em um dos interessantes expedientes utilizados por Santiago. O emprego de tal recurso,embora engenhoso,não representa novidade na história da literatura brasileira.Exemplo próximo e bastante conhecido seriam as Memórias póstumas de Brás Cubas ,de Machado de Assis,em que o protagonista acumula os papéis de “autor”,narrador e personagem.Desde a dedicatória,passando pelo trecho endereçado

10 ao leitor,até o primeiro capítulo,que conta o óbito do pseudo-autor,Machado de Assis constrói a ilusão de que a figura que atende pelo nome de autor do romance é o protagonista Brás Cubas.Memórias póstumas ,porém,traz em sua capa,junto ao título,o nome do autor empírico,Machado de Assis — nisto se aproximando do romance Em liberdade ,de Santiago.Os dois livros têm em comum,além do recurso de complexificação e subversão da estrutura polifônica,o fato de apresentarem narrativas que aparentam o que não são enquanto gênero.Ou seja,Em liberdade poderia ser considerado autobiografia,se tivesse sido escrito por Graciliano,de fato,mas na realidade é uma ficção de Santiago;Memórias póstumas ,igualmente,poderia ser tomado como autobiografia,se tivesse sido concebido por um Brás Cubas de carne e osso,mas, na verdade,Brás Cubas existe,concreta e inquestionavelmente,apenas enquanto personagem de um também romance,de autoria de Machado de Assis. A comparação é ilustrativa:serve para mostrar o jogo que se pode criar entre o caráter ficcional e a natureza factual de narrativas através de alguns de seus elementos constitutivos.O romance de Santiago,de per si,já evidenciaria a potencialidade de trânsito da ficção para a confissão — como diria Antônio Cândido — na obra de Graciliano e,em especial,em Memórias do cárcere ,seu último livro.O expediente utilizado por Santiago tem algo de metaliterariamente alusivo,quando insinua o enredo extremamente plausível no qual figura um Graciliano ex-prisioneiro,que é em tudo verossímil,contado por um autor-narrador em tudo análogo ao de Memórias do cárcere . Trata-se da alusão ao ser que não é,mas que perfeitamente poderia ser,e do questionamento do fazer literário instilado dentro da própria obra,por meio do artifício

11 que envolve a verossimilhança e os elementos estruturais da própria narrativa,como perspectiva narrativa,personagem,enredo,tempo,ambiente,linguagem e estilo. Essa imprecisão — ou melhor,essa dubiedade de gênero — nada tem de antagônico,nem em Santiago quanto menos em Graciliano.Aproximadamente a mesma ambigüidade que passa pelo espírito do leitor de Graciliano também está presente quando se lê Em liberdade .Talvez tenha sido com isto que Santiago contou na hora de conceber todo esse mecanismo que também é mimético da essência da obra de Graciliano. Assim,Em liberdade assemelha-se às obras de Graciliano não apenas porque apresenta um estilo que faz lembrar a economia típica de sua escrita ou pela compatibilidade ou continuidade lógica existente entre as narrativas de um e outro autor. Onde Santiago mais se aproxima de Graciliano talvez seja no próprio jogo de mostrar-se e esconder-se evidenciado no sistema polifônico de suas narrativas.O leitor de Santiago perceberá a farsa confessada de uma ficção que se quer autobiográfica;o leitor de Graciliano divisará,em várias de suas obras,a narrativa confessional que se imiscui na fabulação ficcional. A incerteza do leitor diante do discurso indefinível,difícil de se encaixar aos paradigmas de classificação,leva a questionamentos apenas aparentemente ingênuos.Em Infância ,por exemplo,ele poderá se indagar,em face de um protagonista sem nome,se não é muita coincidência que a maioria das aventuras relatadas pelo narrador sejam idênticas,em muitos aspectos,à história do próprio autor,ou que alguns dos personagens e eventos migrem ao longo de seus romances e contos.Os personagens parecem saltar da trama da prosa para a trama da vida real,e dali novamente para a ficção,não havendo como os aprisionar por muito tempo em uma das instâncias.

12 A proposta de sua escrita parece ser diminuir a nitidez das linhas que traçam os limites entre o imaginário e o real.A derrocada gradual,mas jamais levada a cabo plenamente,dos muros dessa fronteira oferece uma interrogação,um estranhamento que faz centrar a atenção do leitor sobre a própria elaboração da obra,sua matéria,seu ponto de vista,sua dinâmica.A escritura da obra propõe,e ensina,uma leitura que considere um território onde as leis do ficcional e do factual perdem sua hegemonia,tornam-se distensas,quase inócuas — uma leitura que reclama a superação da divisão de gêneros em campos opostos e incompatíveis. A obra de Graciliano é como um vetor cujo vértice aponta para um desfecho cada vez mais assumidamente pessoal quanto à forma.Conforme se trilha o caminho de volta, ao ponto de sua origem,porém,percebe-se que a forma é mais conseqüência do que escolha:é um desdobramento natural de toda a trajetória percorrida pelo desejo mais íntimo do escritor de significar a si mesmo:a forma possível de significar simultaneamente a história do homem que foi Graciliano e a história do homem como ser social.Do menino maltratado ao homem encarcerado,a trajetória da obra de Graciliano simboliza o desvalimento do homem histórico em vários aspectos,fazendo refletir a dinâmica do seu modo abstrato de ser em uma forma de gênero aproximadamente concreta.Ou seja,a autonarrativa será tanto mais definida com relação à forma quanto mais imperiosa sua necessidade de representar o homem,apresentando-se a si mesmo. Os subgêneros que se reúnem sob o rótulo genérico “autobiografia” apenas raramente gozam de um estatuto de correspondência ou compatibilidade entre si.Mas o hiperônimo “autobiografia”,com freqüência,é empregado de forma indistinta,para referir conceitos,senão antagônicos,que não denotam precisamente os mesmos valores

13 em comum,como as memórias,o romance pessoal,o poema autobiográfico,o diário,o auto-retrato e até mesmo a biografia.Categorias narrativas intimamente aparentadas em vários aspectos,cada uma delas apresenta traço fundamental e particular que a diferenciará das demais.Lejeune (On Autobiography ;Le pacte autobiographique ),como se verá mais adiante,assinalou,de forma quase prescritiva,alguns desses tipos e suas marcas distintivas. O problema,entretanto,extrapola o terreno das meras ambigüidades terminológicas.A observação de Cândido com referência a Carlos Drummond de Andrade sugere uma crítica ao caráter demasiadamente normativo das conceituações da autobiografia:“A experiência pessoal se confunde com a observação do mundo e a autobiografia se torna heterobiografia,história simultânea dos outros e da sociedade” (Educação pela noite e outros ensaios 36).A substituição do antepositivo resulta não apenas em um sentido oposto para o novo termo,que passa a significar “escrita da vida do outro,do diferente”,mas insinua as dificuldades de se definirem as fronteiras entre as experiências pessoais e a própria história.Pode-se questionar,assim,onde termina a experiência do indivíduo e onde se inicia a da coletividade,quando o eu forma-se a partir de uma vivência intensa no âmago da comunidade. Transposto para o domínio da narrativa,a problemática complica-se por causa justamente do método de se abordar diegeticamente a experiência.A voz narrativa que relata a si própria,na realidade,só o pode fazer mediante a instituição de um outro,pois a consciência do eu apenas existe pela contraposição ao que não é o eu.Ou seja,é preciso que haja um outro para que exista um eu,o que significa que não pode haver identidade sem a história em seu sentido amplo,sem a referência externa.Conseqüentemente,o eu

14 que a voz narrativa relata —o eu narrado —comunica não a experiência solitária,erma, adquirida independentemente de tudo e de todos,mas a experiência que é fruto da contraposição com as alteridades,a vivência repleta de micro-histórias,compartilhadas e repassadas universalmente.No fundo da questão,encontra-se uma voz transautodiegética, já que sua narrativa,ao apresentar a história do eu,ultrapassa os limites de si mesmo. Essa visão drástica,quase fundamentalista — que é o oposto da normatividade preconizada em Lejeune,portanto — estabelece uma paridade,por exemplo,entre os conceitos de autobiografia e memória,desconstruindo a exigência do enfoque na história do indivíduo em uma e na história da coletividade em outra,respectivamente. Os livros Memórias do cárcere e Infância são considerados pela crítica como literatura pessoal.Cândido dirá que “Quando Vidas Secas apareceu [...] ninguém supunha estar lendo o último romance do autor” (Ficção e confissão:ensaios sobre Graciliano Ramos 103).Dessa forma,como a primeira edição de Vidas Secas saiu em 1938,ano seguinte à liberação de Graciliano da prisão,percebe-se que Cândido considerava que os livros posteriores do autor — o de 1945 e o de 1953 — não eram romances.Ainda em Ficção e confissão (71),Cândido divide a obra de Graciliano em três grupos:a série de romances escritos em primeira pessoa — Caetés ,São Bernardo e Angústia ;as narrativas redigidas em terceira pessoa — Vidas secas e os contos de Insônia ;e as obras autobiográficas — Infância e Memórias do cárcere .Na realidade,o que Cândido faz é reunir as obras em dois conjuntos maiores,classificando-as em ficcionais e não- ficcionais,para depois dividir o primeiro grupo,considerando o enfoque narrativo.

15 Sônia Brayner,na coleção A literatura no Brasil ,dirigida por Afrânio Coutinho, inscreve na lista das memórias a narrativa da infância de 1945 e as recordações do preso político de 1953,acrescentando: A atitude de Graciliano Ramos frente às memórias é de não traçar limites definidos entre biografia e ficção.Observe-se uma convergência entre o romancista e o autobiógrafo,resultado talvez da descrença em uma forma puramente objetiva (não ficcional) de se atingir a verdade.[...].Não é nos fatos que reside a distinção e sim na forma como são narrados,na originalidade da visão,na criação de novos tipos de realidade.(407) Clara Ramos,na biografia Mestre Graciliano:confirmação humana de uma obra , comentando sobre a vida familiar de seu pai,dirá que os avós teriam motivado o primeiro livro de memórias do autor.A citação que Clara Ramos destaca — “Meu pai fora um violento padrasto,minha mãe parecia odiar-me,e a lembrança deles me instigava a fazer um livro a respeito da bárbara educação nordestina” 3 (27) — encontra-se em Memórias do cárcere ,mas o primeiro livro de memórias a que se refere é Infância .Como mais tarde procederia Dênis de Moraes,autor de O velho Graça:uma biografia de Graciliano Ramos ,Clara Ramos usa trechos dos próprios livros do pai no relato que escreve da vida de Graciliano.Naturalmente,se para Clara Ramos tais trechos serviram para ilustrar detalhes da vida do autor,é certo que ela os tivesse por relatos de teor comprovadamente autobiográfico com que pudesse traçar um retrato fiel de seu pai. Fernando Cristóvão,dissertando sobre as correlações entre ponto de vista e autobiografia na obra de Graciliano,dirá que “Infância aproxima-se da espécie ‘memórias’ e Memórias do Cárcere da espécie ‘confissão’ ou ‘diário’,dado o 3 Clara Ramos não referencia o trecho citado,que se encontra em Memórias do cárcere 2:178.

16 desenvolvimento da descrição de certos acontecimentos e da sua repercussão nos protagonistas” (23-24). Sobejam na literatura crítica os exemplos que abonam tanto Infância quanto Memórias do cárcere como narrativas memorialistas ou autobiográficas.Entretanto, apesar de subscreverem-se sob a rubrica do “pessoal”,Infância e Memórias do cárcere são narrativas de naturezas diversas,a começar pelo modo como foram concebidas. O ano de 1938 marca o princípio da gestação do que viria a receber o título Infância ,cujas vias de publicação por capítulos,em periódicos da época,estavam associadas à crítica situação financeira pela qual o escritor passou após ter sido libertado da prisão.Infância ,apesar disso,já estava nas cogitações de Graciliano pelo menos desde 1936,pelo que se percebe em uma carta enviada a Heloísa,sua esposa,datada de 28 de janeiro: Um dia desses,no banheiro,veio-me de repente uma ótima idéia para um livro.Ficou-me logo a coisa pronta na cabeça,e até me apareceram os títulos dos capítulos,que escrevi quando saí do banheiro,para não esquecê- los:Sombras,O Inferno,José,As Almas,Letras,Meu Avô,Emília,Os Astrônomos,Caveira,Fernando,Samuel Smiles.[...] Vou ver se consigo escrevê-lo depois de terminado o Angústia.(Cartas 161) Segundo Moraes (177),em 18 de outubro de 1938,o Diário de Notícias publica “Samuel Smiles”,primeiro de uma série de contos que figurariam,mais tarde,como capítulos de Infância .Apenas no quarto conto da série — “Um Cinturão” — é que Graciliano perceberá o filão a explorar:“A 1º de maio de 1939 veio a lume ‘Um Cinturão’.Só aí formei vagamente o projeto de,reavivando cenas e fatos quase apagados, tentar reconstruir uns anos de meninice perdida no interior [...]” (Moraes 177).O

17 primeiro capítulo,“Nuvens”,só foi escrito em 14 de setembro de 1939.Publicado como livro apenas em 1945,Infância levou seis anos para ser gestado. Memórias do cárcere foi um projeto adiado para os derradeiros anos da vida de Graciliano,de modo que,quando é publicado postumamente em 1953,Infância já completara oito anos,desde que veio a lume como livro.O próprio autor diz,em Memórias do cárcere (1:35),que sua escrita fora reclamada,exigida por terceiros,que lhe teriam oferecido dados e figuras desaparecidas,instando-o a que empreendesse o projeto prontamente,até o convencer.Além disso,Clara Ramos testemunha,em um livro mais recente (Cadeia 164), que seu pai mantivera um contrato com a editora José Olympio,que lhe remunerava mensalmente em troca de alguns capítulos do livro.A escrita de Memórias do cárcere prosseguiu até a morte de Graciliano em 1953. As duas narrativas assemelham-se pelo fato de que se embasam ambas em lembranças,recordações de um passado.Mas,enquanto Infância forja um eu narrado em forma de menino,compreendendo as referências a um período que vai aproximadamente da idade de três anos até o início da puberdade,aos onze anos,em que o protagonista tem os primeiros contatos com a (in)justiça na figura do pai e da mãe;Memórias do cárcere relatará o universo do adulto que,como diz Cândido,“se empenha nas coisas do século,é preso,jogado dum canto para outro e desce a fundo na experiência dos homens” (Ficção e confissão 54). Por contraste,Infância ,também considerado um livro pessoal,segundo Cândido,é uma “autobiografia tratada literariamente;a sua técnica expositiva,a própria língua parecem indicar o desejo de lhe dar consistência de ficção [enquanto] Memórias do

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Abstract: This work will focus on an examination of textual evidence to show that Graciliano Ramos's Infância (2006) is the result of the author's long and arduous trajectory as an autodidact. That trajectory is represented in a narrative that describes Ramos's process of acquiring literacy. In the narrative, there is first a report on the cultural aspects from the author's original social environment, in which a process of disruption is triggered and leads to a stage of transculturalization. During this stage the author leaves his immediate cultural universe to acquire new knowledge and constructs for himself references that are external to his familial background, such as the practice of intense reading. To maintain this recently developed habit, Graciliano Ramos creates partnerships with individuals who can guide him along a path that will take him to other levels in his cultural journey. In Infância , the final verification of the author as an autodidact is metaphorically represented by the short story "Pequeno pedinte", which is written by the protagonist. The content of the story is clearly autobiographical and alludes to a broader literary project in which the writer finds meanings for his entire career. The project referred to in the short story is Infância itself. Infância is constituted by memories of a past in which the author plays the role of the protagonist who learns to read and write and moves from one level of literacy to another. To support my discussion of Graciliano Ramos's trajectory as an autodidact who writes an autobiographical account, I will first analyze the concept of autobiography in relation to Infância e Memórias do cárcere , considered by most critics to be autobiographical. I will then study Infância in terms of his literary work in general. The focus will be on the type of relationship that Graciliano Ramos's reader may establish with the narratives, whether biographical or fictional, and on the way that they can identify the autodidact's features in the autobiographer's trajectory. I conclude in this work that the concept of autodidacticism can be extended to the individual who has not written an autobiography per se, but who has used other forms of narratives, either artistic or not, in prose or in a wide range of oral manifestations, such as ballads, songs, popular poetry, "repente", and rap, to express an autodidact/autobiographical model.